Cartografia na Segurança Pública: a Cartografia da Criminalidade como ferramenta estratégica de apoio à decisão
- 2 de fev.
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A segurança pública enfrenta, hoje, desafios cada vez mais complexos, sobretudo em contextos urbanos marcados por crescimento acelerado, desigualdades socioespaciais e forte pressão sobre os serviços do Estado. Neste cenário, a atuação eficaz das forças de segurança exige mais do que respostas reativas: exige planeamento, análise territorial e decisões baseadas em informação estruturada.
É neste contexto que a cartografia aplicada à segurança pública, apoiada pelos Sistemas de Informação Geográfica (SIG), assume um papel central. A chamada Cartografia da Criminalidade (Crime Mapping) constitui uma abordagem técnica e científica que permite compreender, analisar e antecipar padrões criminais no território, apoiando a gestão estratégica da segurança.
Cartografia, SIG e Segurança Pública: definições essenciais
A cartografia é a ciência e a técnica de representação do espaço geográfico, permitindo visualizar fenómenos territoriais e comunicar informação espacial de forma clara e objetiva. Com a evolução tecnológica, a cartografia passou a integrar bases de dados digitais e análises avançadas, dando origem aos Sistemas de Informação Geográfica (SIG).
Os SIG permitem:
armazenar dados georreferenciados;
cruzar informação espacial e alfanumérica;
analisar padrões espaciais e temporais;
apoiar a tomada de decisão.
No âmbito da segurança pública, os SIG transformam registos de ocorrências em inteligência territorial, permitindo às forças de segurança compreender melhor onde, quando e como os crimes ocorrem.
Como afirma Tomóteo (218, p.18). A complexidade dos processos sócio económico e dos mecanismos de tomada de decisões torna necessário o estudo aprofundado da cartografia que é capaz de captar e assimilar em si os mais diversos aspectos e manisfestações do mundo em que vivemos para a elaboração e o estudo dos mapas cartográficos como método especial da representação da realidade.
Cartografia da Criminalidade: fundamentos teóricos e práticos
A Cartografia da Criminalidade consiste na representação e análise espacial de dados criminais, com o objetivo de identificar padrões, concentrações e tendências. Conforme defendido por Keith Harries, no livro Mapeamento da Criminalidade: Princípios e Prática, o mapeamento criminal não deve ser visto apenas como visualização de dados, mas como uma aplicação científica da cartografia integrada aos SIG, com impacto direto na investigação, prevenção e planeamento policial.
A criminalidade não se distribui aleatoriamente no território. Ela está associada a fatores como:
densidade populacional;
uso e ocupação do solo;
redes viárias;
iluminação pública;
características socioeconómicas;
organização do espaço urbano.
A análise espacial desses fatores permite identificar hotspots criminais, apoiar estratégias de policiamento preventivo e otimizar a alocação de recursos.
A experiência da TOPOGIS na Cartografia da Criminalidade
A TOPOGIS tem vindo a contribuir para a disseminação do conhecimento sobre Cartografia da Criminalidade através de conteúdos técnicos e formativos, incluindo vídeos educativos que abordam conceitos, metodologias e aplicações práticas do crime mapping no contexto africano.
Esses conteúdos demonstram, de forma clara, como os SIG permitem:
mapear ocorrências por tipo de crime;
analisar variações temporais;
apoiar patrulhamento orientado por dados;
reforçar o policiamento de proximidade.
A experiência formativa acumulada mostra que a adoção da cartografia da criminalidade representa um salto qualitativo na forma como a segurança pública pode ser planeada e gerida.
No que concerne ao mapeamento de ocorrências por tipo de crime, o mapa turístico de Luanda concebido em 2012, vinha sendo muito usado por comandos municipais em Luanda onde embora de forma arcaica, algum oficial indicado desenhava sobre eles as táticas para patrulhamento usando simbologias apropriadas ao sector policial.

O papel do CISP e o potencial da Cartografia da Criminalidade
O Centro Integrado de Segurança Pública (CISP) constitui uma estrutura fundamental para a coordenação e gestão da informação relacionada com a segurança. No entanto, o seu potencial pode ser significativamente ampliado com a integração sistemática da Cartografia da Criminalidade baseada em SIG.
Ao incorporar dados georreferenciados e análises espaciais, o CISP pode:
centralizar ocorrências criminais com referência espacial;
produzir mapas analíticos e indicadores territoriais;
apoiar decisões estratégicas a nível nacional;
reforçar a articulação com os comandos provinciais.
A cartografia transforma dados operacionais em inteligência estratégica, fortalecendo a capacidade de resposta e prevenção.
Um modelo estruturado para a Cartografia da Criminalidade
A implementação eficaz da Cartografia da Criminalidade requer um modelo técnico e organizacional bem definido, assente em três pilares principais:
1. Base de dados geográfica centralizada
Os dados criminais devem ser armazenados numa base de dados espacial (por exemplo, PostgreSQL/PostGIS), garantindo padronização, segurança da informação e capacidade analítica avançada.
2. Acesso em rede pelos comandos provinciais
O sistema deve permitir acesso controlado e descentralizado, possibilitando que os comandos provinciais consultem, atualizem e analisem dados, mantendo coerência nacional.
3. Capacitação técnica dos oficiais
A tecnologia só é eficaz quando acompanhada de formação. É fundamental capacitar oficiais e técnicos em:
cartografia aplicada à segurança;
SIG;
análise espacial da criminalidade;
interpretação de mapas e indicadores.
Este modelo promove uma cultura de decisão baseada em dados, reduzindo a dependência exclusiva de abordagens reativas.
A contribuição da TOPOGIS e dos seus especialistas
A concepção e implementação de um sistema de Cartografia da Criminalidade exige conhecimento técnico especializado e experiência prática. A TOPOGIS e os seus especialistas podem contribuir de forma decisiva através de:
desenho do modelo cartográfico e da arquitetura de dados;
apoio à implementação de bases de dados espaciais;
capacitação técnica de quadros da segurança pública;
desenvolvimento de projetos-piloto;
acompanhamento técnico contínuo.
Mais do que fornecer tecnologia, trata-se de transferir conhecimento e metodologia.
Conclusão
A segurança pública contemporânea exige ferramentas que permitam compreender o território de forma integrada. A Cartografia da Criminalidade, apoiada por Sistemas de Informação Geográfica, oferece às instituições de segurança uma base sólida para planear, prevenir e agir de forma mais eficiente.
Ao integrar cartografia, SIG, bases de dados em rede e capacitação técnica, estruturas como o CISP e a Polícia Nacional podem fortalecer a inteligência criminal e promover uma atuação mais estratégica e preventiva.
Mais do que mapas, a Cartografia da Criminalidade representa inteligência geográfica ao serviço da segurança e da cidadania.
Por: Rosário Dilo - Engº Geógrafo, Pós graduado em Ciência de Dados e Mestrando em Infraestruturas e Engª Civil.












































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