Saúde Pública e Inteligência Geográfica: o papel dos SIG na prevenção e gestão de epidemias em Angola
- 6 de fev.
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1. Introdução
A saúde pública é profundamente influenciada pelo espaço geográfico. Doenças, epidemias e agravos à saúde não se distribuem de forma aleatória no território, mas seguem padrões associados a fatores ambientais, sociais, demográficos e infraestruturais. Em países tropicais e em rápido crescimento urbano, como Angola, essa relação torna-se ainda mais evidente, especialmente em períodos chuvosos, quando problemas como alagamentos, acúmulo de resíduos sólidos e precariedade do saneamento se intensificam.
Neste contexto, a Inteligência Geográfica, suportada pelos Sistemas de Informação Geográfica (SIG), surge como uma ferramenta estratégica para apoiar a vigilância em saúde, a prevenção de doenças e a tomada de decisão baseada em evidências.
2. Inteligência geográfica aplicada à saúde pública
Os Sistemas de Informação Geográfica constituem ferramentas fundamentais para a análise de fenómenos que apresentam dependência espacial, permitindo integrar dados de diferentes fontes, analisar padrões territoriais e apoiar processos de tomada de decisão em áreas como planeamento urbano, meio ambiente e saúde pública (Câmara et al., 2001).
A inteligência geográfica consiste na integração, análise e interpretação de dados espaciais para compreender fenómenos que se manifestam no território. Na saúde pública, isso significa cruzar informações como:
localização de casos de doenças;
densidade populacional;
uso e ocupação do solo;
condições ambientais;
acesso a serviços de saúde;
infraestruturas de saneamento e drenagem.
A literatura clássica do geoprocessamento em saúde demonstra que o uso de SIG permite identificar áreas de risco, detectar padrões espaciais, monitorar a evolução de doenças e orientar políticas públicas mais eficazes, especialmente em contextos urbanos complexos.
3. Angola e os desafios sanitários associados ao território: exemplos cartográficos aplicados
3.1 Malária, período chuvoso e análise espacial do risco
A malária continua a ser uma das principais endemias em Angola, com forte relação com o território e com fatores ambientais. Durante o período chuvoso, a formação de charcos de água parada, muitas vezes associada a drenagem deficiente, lixo acumulado e ocupação desordenada do solo, cria condições ideais para a proliferação do mosquito vetor.
A utilização do geoprocessamento na saúde pública permite analisar a distribuição espacial de doenças e sua relação com fatores ambientais e socioeconómicos, possibilitando a identificação de áreas de risco, a vigilância epidemiológica e o direcionamento mais eficiente das ações de prevenção e controlo (Barcellos).
Do ponto de vista da inteligência geográfica, diferentes tipos de mapas podem ser utilizados:
Mapa coroplético: para representar a incidência de casos de malária por comuna, distrito ou bairro, permitindo comparar áreas com maior ou menor taxa de ocorrência.
Mapa de densidade (Kernel Density): para identificar clusters espaciais de casos, revelando zonas críticas onde a transmissão é mais intensa.
Mapa de sobreposição temática: cruzando áreas alagáveis, uso do solo, densidade populacional e ocorrências de malária, permitindo compreender a relação entre ambiente e doença.
Esses mapas apoiam decisões como:
priorização de campanhas de pulverização;
distribuição de mosquiteiros;
ações de saneamento ambiental;
planeamento de intervenções preventivas antes do pico das chuvas.
3.2 Epidemia de febre amarela (2016): cartografia de cobertura vacinal
A epidemia de febre amarela registada em Angola em 2016 evidenciou a importância da localização espacial dos serviços de saúde e da capacidade logística das campanhas de vacinação. A resposta à epidemia exigiu rapidez, coordenação e conhecimento do território.
Neste contexto, a TOPOGIS desenvolveu um projeto de mapeamento dos postos de vacinação, demonstrando o papel estratégico da cartografia na saúde pública.
Os principais tipos de mapas aplicáveis são:
Mapa de símbolos pontuais: representando a localização dos postos de vacinação, com simbologia diferenciada por tipo de unidade ou capacidade de atendimento.
Mapa de símbolos proporcionais: indicando o volume de vacinas aplicadas por posto ou por área, permitindo avaliar a carga operacional.
Mapa de acessibilidade: utilizando buffers ou análise de distância para identificar áreas da população fora da zona de cobertura ideal dos postos.
Esses produtos cartográficos permitem:
identificar lacunas na cobertura vacinal;
otimizar a localização de novos postos;
apoiar a logística e o planeamento das campanhas;
melhorar a equidade no acesso à vacinação.

Figura - 2. Um web map que tinha sido desenvolvido na altura. Fonte: TOPOGIS. Lda
3.3 COVID-19 e os Atlas Geográficos da pandemia em Angola

Durante a pandemia da COVID-19, a análise espacial tornou-se essencial para a compreensão da propagação da doença e para a comunicação pública. A TOPOGIS produziu três edições do Atlas da COVID-19 em Angola, integrando dados epidemiológicos e cartografia temática.
Entre os mapas utilizados destacam-se:
Mapas coropléticos: mostrando a distribuição de casos confirmados, recuperados e óbitos por província ou município.
Mapas temporais (séries espaciais): permitindo acompanhar a evolução da pandemia ao longo do tempo.
Mapas de clusters espaciais: identificando áreas com concentração significativa de casos, apoiando medidas de contenção e vigilância.
Esses mapas tiveram um papel fundamental na:
visualização clara da situação epidemiológica;
comunicação transparente com a população;
apoio à gestão de recursos de saúde.

Link para baixar as três versões do Atlas Covid 19 em Angola:
A análise espacial de eventos, apoiada por cartografia temática e estatística espacial, permite identificar padrões de concentração, recorrência e dispersão que não são evidentes em análises puramente estatísticas, contribuindo para a compreensão dos processos subjacentes e para a definição de estratégias de intervenção mais eficazes (Harries, 2004).

A Figura 5, extraída do Atlas da COVID-19 em Angola, ilustra a aplicação de técnicas de análise espacial para compreender a distribuição territorial da pandemia no país. Observam-se mapas de probabilidade de ocorrência e de intensidade de casos, representados através de superfícies contínuas e áreas de concentração (clusters), que evidenciam regiões com maior incidência da doença. Estas representações permitem identificar padrões espaciais claros, destacando zonas urbanas e eixos de mobilidade como áreas críticas de propagação(maior foco, a província de Luanda).
Adicionalmente conforme a página seguinte, a sobreposição da informação epidemiológica com a infraestrutura de transporte possibilita compreender a relação entre circulação populacional e disseminação do vírus, reforçando a importância da mobilidade como fator determinante na dinâmica da COVID-19. Os gráficos estatísticos complementam a análise cartográfica, permitindo comparar frequências e volumes de ocorrências entre regiões, apoiando a interpretação quantitativa dos dados espaciais.
Este tipo de cartografia temática demonstra como a inteligência geográfica transforma dados brutos em informação estratégica, apoiando ações de vigilância epidemiológica, planeamento de intervenções sanitárias, definição de prioridades territoriais e tomada de decisão baseada em evidência, especialmente em contextos de crise de saúde pública.
Conclusão:
A análise apresentada ao longo deste artigo evidencia que os desafios da saúde pública em Angola não podem ser compreendidos nem enfrentados de forma dissociada do território. Doenças como a malária, surtos epidémicos como a febre amarela e a recente pandemia da COVID-19 demonstram que fatores ambientais, padrões de mobilidade, densidade populacional e infraestrutura urbana influenciam diretamente a dinâmica de propagação das doenças.
A inteligência geográfica, materializada através dos Sistemas de Informação Geográfica e da cartografia temática, revela-se um instrumento fundamental para transformar dados dispersos em informação estruturada, permitindo identificar áreas críticas, antecipar riscos e orientar políticas públicas baseadas em evidência territorial. Produtos como o Atlas da COVID-19 em Angola demonstram, de forma prática, como a integração entre análise espacial, estatística e cartografia pode apoiar a vigilância epidemiológica e a tomada de decisão em contextos complexos.
Nesse sentido, a incorporação sistemática do geoprocessamento nos processos de governação eletrónica da saúde pública representa não apenas um avanço tecnológico, mas uma mudança de paradigma, onde o território passa a ser reconhecido como elemento central na formulação de estratégias preventivas, na alocação eficiente de recursos e na promoção de uma resposta mais justa e eficaz aos desafios sanitários do país.
Por: Rosário Dilo - CEO TOPOGIS, Lda I Consultor
Engº Geógrafo I Pós graduado em Ciência de Dados I Mestrando em Infraestruturas e Engª Civil.












































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